CD – Osesp e Claudio Cruz

A Fundação Osesp comemora 20 anos de Cláudio Cruz como spalla da Orquestra com o lançamento do CD Osesp e Cláudio Cruz, em edição especial oferecida aos assinantes e disponível para download gratuito. Além da gravação das músicas, é possível baixar o encarte completo para montar o CD.

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CLAUDIOCRUZ

Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

John Neschling regente
Cláudio Cruz violino

Max BRUCH
Concerto nº 1 Para Violino em Sol Menor, Op.26
1 – Vorspiel
2 – Adagio
3 – Finale

Pyotr I. TCHAIKOVSKY
Concerto Para Violino em Ré Maior, Op.35
4 – Allegro Moderato
5 – Canzonetta: Andante
6 – Finale: Allegro Vivacíssimo

Aos 43 anos de  idade, 20 deles  como  spalla da Osesp,  Cláudio  Cruz  comenta  nessa  conversa sua trajetória como músico. O garoto paulistano, filho do luthier João Cruz, foi aluno de Maria Vischnia e de Erich Lehninger. Chegou à Osesp em  1985, aos  18  anos. Após  um  período  de  estudos  nos Estados Unidos, precisamente no dia 15 de março de 1990 – véspera de seu aniversário de 23 anos –, Cláudio assinou o contrato para ser spalla. Hoje o primeiro violino da nossa Orquestra multiplica atividades musicais. Além do violino (e da viola),
tem  atividade  cada  vez mais  expressiva  como regente; apresenta-se em recitais e em quartetos, no Brasil e no exterior; dá aulas de  instrumento e  dedica-se  ainda  à  revisão  e  resgate  de  obras de compositores brasileiros.

 

Festival de Ourinhos1

Você está com 43 anos e há 20 é spalla da Osesp. Hoje, depois de toda essa experiência de vida, quem é Cláudio Cruz para o Cláudio Cruz?

 

Sou filho de um luthier, não fui agraciado com bolsas de estudos, casei cedo, tive três flhos; não tive uma vida muito fácil, mas nunca deixei de estudar, não abandonei o sonho. Tocava em tudo quanto é orquestra e restaurante, até as três horas da manhã,  juntava dinheiro e ia para os EUA estudar. Mesmo depois de estabilizado profissionalmente como violinista, ainda fui atrás de aprender a reger. Agora, estou louco para gravar isso, gravar aquilo, tenho muitos concertos para fazer. Então, acho que sou uma pessoa determinada. Essa força que recebo é o traço mais importante da minha personalidade. 

Eu poderia fazer o que muitas vezes sinto vontade: sentar num barzinho e tomar cerveja a tarde inteira, ver o dia passar  jogando dominó,  lendo  jornal. Adoro  isso. Nunca fiz, mas sei que adoro. Errei muito em relação ao tempo que não dediquei aos meus flhos, à minha esposa, por ficar trancado dentro de um quarto, estudando. Às vezes me arrependo, mas continuo errando. É isso que me mantém e faz com que eu possa brigar de igual para igual com as pessoas que tiveram acesso a professores e oportunidades melhores. 

Não posso reclamar. E a melhor sorte que tive foi a Osesp, o cargo de spalla. Enfim, acho que a determinação é  importante. Ensino  isso aos meus alunos: não desistir, se têm um sonho. Nem sei mais que sonho eu tenho… mas continuo determinado.

Mas como foi sua entrada na Osesp?

A primeira vez que toquei na Orquestra foi em 1985. Ganhei o concurso Jovem Solista da Osesp e, em seguida, o maestro Diogo Pacheco me convidou para o Jovem Solista da Paraíba, com o Maestro Eleazar de Carvalho.
Saí de  lá membro da Osesp. A Orquestra tinha tração traseira e tração dianteira: nas últimas estantes ficavam os jovens talentos; nas primeiras, os músicos mais velhos, já consagrados, como o Airton Pinto e Clemente Capela. Toquei na fla durante algum tempo e depois saí porque queria estudar. Fiz vários cursos, inclusive fora do Brasil. Tive também uma passagem pela Osusp. Mas toquei na fila da Osesp por uns três anos, a partir de 85. Eu era um menino, tinha 18 anos…

Como foi a volta?

Estava em Houston, nos EUA, em 1989, e liguei para a casa do Maestro Eleazar em New Haven, pensando em lhe fazer uma visita. Ele falou: “Professor Cruz, a cadeira de spalla está à sua disposição”. Eu disse que só queria visitá-lo, mas o maestro encerrou a conversa: “Não, o senhor vai voltar para o Brasil, apresente-se em 5 de março. Passar bem”. Fiquei em confito. Falei com meu pai, falei com meu professor, Kenneth Goldsmith, que me aconselhou a não desperdiçar essa oportunidade. Dia 15 de março de 1990 assinei o contrato com a Osesp.

 

Eleazar ainda regia.

 

Trabalhei com ele até  1996. Quando cheguei houve protesto dos mais velhos, achavam que eu não estava pronto para o cargo. O Maestro me chamou e disse que só havia uma solução. Perguntou qual concerto eu tocaria na próxima semana, pois estava cancelando o solista. Argumentei que não havia tempo razoável para me preparar, mas a resposta foi: “Diga qual o concerto”. Continuou me pedindo nomes de obras que eu tocasse, mudou todo o repertório das apresentações do ano: seriam em grande parte peças  com  solos de  violino. Disse que  voltaríamos  a  conversar  após  seis meses. Encerrado o prazo, bati em sua porta e ele  já estava  rindo, disse para eu ficar  tranqüilo e voltar ao  trabalho.

 

Hoje você tem uma soma de atividades relacionadas à música.

Vou fazer alguns concertos com o Quarteto Portinari. Pretendo gravar mais obras para quarteto, já fiz seis ou sete CDs de música brasileira para essa formação e há muito ainda o que ser feito. São peças que precisam de revisão das partituras; muitas vezes a partitura geral é conflitante com relação às partes, e eu gosto de fazer isso. Quero gravar os quartetos de Henrique Oswald [ 1852-1931 ], de Octávio Meneleu Campos [ 1872-1927 ], fazer uma boa gravação dos quartetos de Alberto Nepomuceno [ 1864-1920 ]. Uma gravação com muita ginga dos quartetos do Radamés Gnattali [ 1906-1988 ]. Alguns nunca foram gravados! Os quartetos de Oswald nunca foram tocados! Ainda nesse ano vou gravar os prelúdios do Flausino Vale [ projeto contemplado no Programa Petrobras Cultural ], para lançar em 2011. É uma obra importante, para violino solo. Não existe gravação de todos os prelúdios por uma única pessoa, muito menos por um brasileiro. É música seresteira, bonita, com um sotaque mineiro.

 

E regência?

É o que mais  tenho  feito nos últimos  12 anos. Até passei a  tocar menos  concertos  como  solista, pois para esses concertos grandes, como o de Tchaikovsky, são três meses da vida em que o violino vira um  sacerdócio. Quatro,  cinco horas por dia de estudo, acordar de madrugada. Acabo  tocando uns  três  grandes  concertos  por  ano.  Faço muito  recital  com  piano  e  enveredei  pela  regência, o que aconteceu naturalmente. Consigo hoje reger uma ópera de duas horas e meia, controlando coro, orquestra, cantores e, às vezes, até monitor e câmera. É muito gostoso, depois de estudar quatro horas de violino, pegar a Quarta de Mahler e imaginar como montar esta grande obra. A regência é um grande prazer.

 

Você escuta tudo só lendo a partitura, ou vai para o piano?

Atualmente,  já tenho a visão vertical. Olho a partitura e consigo  imaginar exatamente como soa. Não tive difculdade com a leitura dos instrumentos, as transposições. Isso eu aprendi rapidamente. Tive um professor de matérias teóricas excelente. Depois, estudei harmonia com Oliver Toni, um grande professor.

 

O que você nos diz do Concerto de Bruch e do de Tchaikovsky?

 

O de Tchaikovsky é um projeto para muito tempo, quando se estuda pela primeira vez. Eu o estudei com Maria Vischnia, e foram dois anos de trabalho até que ele fcasse maduro e eu pudesse tocar com orquestra. Foi cedo, eu tinha uns 22 anos, e foi bom, porque começar a tocar esses concertos depois seria mais sofrido. O problema desses grandes concertos, de Tchaikovsky, Beethoven, Brahms, é que quando você termina o primeiro movimento sente que já deu seu recado. É exaustivo. E nesses três concertos o primeiro movimento termina de forma apoteótica, o concerto poderia ter acabado ali. Mas ainda tem mais dois movimentos e,
no caso do Tchaikovsky, é preciso estar fresquinho para o terceiro. É um tipo de concerto em que é preciso saber se poupar nos momentos certos. Poupar tudo: técnica, força, adrenalina.

 

Uma maratona.

É, porque no Tchaikovsky são 35 minutos de muita nota e no momento que o violino solo para a orquestra é grandiosa e apoteótica. Tudo  isso afeta o solista psicologicamente. É muito difícil, depois de um tutti de orquestra como esse, entrar tranqüilo, senhor de si. Eu tive uma boa professora. Só os violinistas que tocaram os grandes concertos podem dizer: “Tome cuidado com essa armadilha”. O Concerto de Bruch foi um dos primeiros que estudei, tenho uma ligação afetiva que me traz muitas lembranças da fase de adolescente. E não é um concerto muito grande. Todo os grandes  violinistas  tocam – e tocam bem. Quando decidi gravá-lo, resolvi que deveria fazer uma interpretação especial. Não apenas tecnicamente, mas pensando na parte operística do concerto. Neste concerto deve-se privilegiar a interpretação mais romântica, deixando a sensibilidade humana aforar, distanciando-se da música religiosa.

E a gravação, como ficou?

 

Não costumo gostar do que gravo, sempre acho que poderia ser melhor, mas com essa gravação eu fiquei satisfeito. Sempre sinto que os instrumentos de cordas se aproximam da voz humana. E eu tenho também a possibilidade de transformar uma única nota em muitas cores: é uma nota inserida na natureza. Eu ouvia muito isso dos meus professores, o Walter Bianchi na música de câmara, o Oliver Toni, a Maria Vischnia. Hoje em dia não se fala mais nisso, fala-se em perfeição, em técnica, sou um pouco crítico aos músicos de hoje.

O que procuro fazer é voltar ao passado e tocar um violino que tem mais a ver com a interioridade. Pode-se tocar num instrumento 50 mil vezes melhor que o meu, com um arco maravilhoso, tudo funcionando muito bem – no ano passado, tive a oportunidade de tocar em um instrumento de 5 milhões de dólares e percebi que a vida fica mais fácil –; mas se não há entrega, alguma coisa de si que se coloque nas notas……

 

 

Entrevista a Arthur Nestrovski e Fabiana Ghantous (11/2/2010)

3 comentários sobre “CD – Osesp e Claudio Cruz

    • É possível que tenhamos nos visto em Ourinhos, fiquei na sala da Prof. Simona Cavuoto, provavelmente você estava na sala do lado com a outra professora, Betina acho que era o nome dela. E estive naquele masterclass de cordas da Osesp. Vacilei em não participar da Orquestra regida por Julio Medaglia. Me arrependi é claro. Estava com receio de que fosse muito alto o nível de estudo necessário para participar. Aí no dia que fui assistir o primeiro ensaio notei que havia gente de todo tipo. Bem bem, fazer o que né, amanhã é outro dia rsrsrs.

  1. Participei em londrina no festival de musica (30) .
    Gostei muito da sua metodologia, gostaria de marcar aula com você. (particular).
    agardo ancioso sua resposta.
    agradeço antecipadamente.
    Gabriel.
    para o Claudio Cruz

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