Livro "Stradivarius"

Livro “Stradivarius” põe mais luz sobre o instrumento mais famoso do mundo

 

por RICARDO FELTRIN
Editor-chefe da Folha Online


Ele poderia ser chamado de “Bach”, “Einstein” ou “Da Vinci” dos instrumentos de cordas. Tanto faz. Qualquer epíteto ou superadjetivo caberá com folga na vida e obra de Antonius Stradivarius, o luthier italiano que construiu os mais mitológicos, caros e cobiçados instrumentos do mundo, de todos os tempos. Haja epíteto.
Muito da vida e obra de Stradivarius (1644-1737), bem como da indústria e comércio em torno da música nos séculos 17 e 18, está nas livrarias com a obra de estréia do britânico Tony Faber, 41.
No livro “Stradivarius – Cinco Violinos, Um Violoncelo e Três Séculos de Perfeição” (ed. Record, 278 págs., R$ 40 em média), o autor usa seis dos cerca de 1.200 instrumentos construídos por Stradivarius como “isca” para manter o leitor preso às páginas. E o consegue, não só graças às interessantes pesquisas históricas que fez em torno do homem e do mito Stradivarius, mas também pela fluidez e simplicidade de seu texto.
Qualquer amante de música, clássica ou popular, vai apreciar as histórias envolvendo a vida desse senhorzinho que construiu violinos até o último de seus 93 anos de vida, e de seus concorrentes contemporâneos. Morreu riquíssimo, aliás. Antonius Stradivarius teve o mérito reconhecido em vida e, contrariando o ditado, foi santo de casa que fez milagre não só em sua natal Cremona, mas em toda a Europa. Ele sem dúvida ajudou a mudar –para melhor– a história da música universal.

 

O violino Messias, fabricado por Antonius Stradivarius em 1716

Os violinos abordados no livro são o Messias, o Viotti, o Khevenhüller, o Paganini e o Lipinski. O violoncelo é o Davidov (hoje em posse do popular concertista sino-americano Yo-Yo Ma). Os nomes dos instrumentos são uma deferência histórica para com seus proprietários mais famosos, à exceção do Messias, até hoje considerado uma obra-prima, digamos, “virgem”.
Faber desenvolve o momento em que cada um desses instrumentos estava sendo construído, e o ilustra com histórias curiosas, divertidas, tristes e até dados sobre a economia italiana de então. Além disso, ele tem o mérito de lembrar que, claro, Stradivarius nasceu com o talento inato, mas antes dele houve a dinastia de Andrea Amati –autor do violino mais antigo que chegou até nós (1564)–, com quem certamente o pequeno Antonio aprendeu muita coisa de seu ofício.

Eterno mistério sem resposta

Yo-Yo Ma com seu cello Davidov, Stradivarius

É a madeira? Seu corte na tora? O fato de ter sido transportada em rio? É o verniz? O tempo que passa? O uso? Por que um Stradivarius tem um som tão mágico e hipnótico? Não se espante, nenhuma dessas perguntas será respondida pelo humilde autor. O que, acredite, é ótimo. Nem especialistas em madeira, nem químicos e tampouco físicos nucleares podem responder. Por mais testes que já tenham sido feitos nessas “criaturas” de madeira, ninguém sabe responder porque um Stradivarius é do jeito que é.
A principal lacuna que o livro de Faber deixa é a respeito da produção de cordas daquela época. Com relutância, ele até comenta brevemente a fabricação dos arcos –que são quase uma parte da alma dos instrumentos–, mas, definitivamente, há falta total de informação sobre as cordas, que são os veículos que criam a sonoridade, que dão voz à mágica do Stradivarius e seus “concorrentes”.
Outra possível falha na edição é o fato de as ilustrações detalhadas e didáticas sobre a composição dos violinos só estarem expostas na segunda metade do livro. Termos como “voluta”, “alma”, “filete” e “ilhargas” poderiam ser melhor compreendidos por leigos se visualizados mais cedo nas páginas. Mas nada que um olhar antecipado do próprio leitor não possa corrigir.
Embora o livro esteja recheado de cotações em libras, mais ou menos atualizadas, é possível perceber que o próprio autor considera de importância menor citar os preços atuais desses instrumentos. Porque afinal um Stradivarius não tem preço. Só valor inestimável.

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